Gabi vai fazer mestrado na Famerp e dá lição de vida

Tatiana Pires - Diário da Região Publicado em 10 de janeiro de 2017 às 00:00 Atualizado em 20 de janeiro de 2022 às 09:32 Foto - Guilherme Baffi

“Desde pequena eu quis fazer psicologia para compreender o ser humano. Com o passar do tempo, fui seguindo passo a passo. Meu desejo é contribuir com a saúde psíquica, auxiliando o sujeito a se compreender e lidar com as suas emoções, tendo relações mais saudáveis”. A frase é de Gabriela Garcia Ceron, de 32 anos, que tem paralisia cerebral. Devido à doença, tem dificuldade de locomoção e da fala, o que não a impede de batalhar pelos seus sonhos. Formada em psicologia em 2007, concluiu pós graduação e agora se prepara para cursar mestrado na Famerp. Gabriela precisou passar por obstáculos impostos por quem não acreditava em seu potencial. No ensino fundamental e médio, cursado em uma escola pública de Nova Aliança, o problema maior foi a inclusão. Seus pais tiveram que arcar com cadeira, mesa e materiais. Ela enfrentou também preconceito de professores da graduação. O momento mais difícil foi quando, ao passar no vestibular, foi desclassificada sem ter sua redação corrigida. O motivo? Não acreditaram que as ideias colocadas no papel fossem dela. “É muito difícil você chegar em um lugar desacreditada. É preciso força e coragem para superar este descrédito. O tempo é o senhor da razão, pois depois viram que eu tinha capacidade para estar em ambiente acadêmico pelos meus próprios méritos.” Para continuar os estudos, Gabi, como é chamada pelos amigos, aprendeu inglês em curso on-line. A mãe dela, a médica Ana Maria de Tofoli Ceron, 56 anos, diz que no inicio os professores não aplicavam provas. “Precisamos questionar o porquê. Na realidade, ela sempre fez os testes, me ditando e eu transcrevia para o papel. Eu brinco que ‘psicografava’ as respostas dela. O engraçado é que a partir do segundo semestre, a colocaram em outra sala para que os colegas de sala não ouvissem as respostas dela.”A paralisia cerebral da estudante ocorreu pela falta de oxigenação adequada no cérebro (anóxia) no momento do parto. Ela sobreviveu, mas precisa conviver com algumas limitações. “São pessoas absolutamente normais. Tem um grupo que não tem déficit cognitivo, só tem o déficit motor. Guardadas as devidas proporções, quem tem paralisia cerebral pode realizar tudo o que quiser na vida.Terá, sim, algumas limitações, não vai poder ser um piloto de avião, por exemplo”, afirmou o neurologista infantil, José Alexandre Bastos, chefe do serviço de neurologia infantil da Famerp. Gabriela diz que a participação dos pais em seu desenvolvimento foi imprescindível. Prestes a iniciar o mestrado em psicologia, a estudante já planeja seus próximos passos. “Pretendo seguir no doutorado e na docência. Compreender o ser humano é fascinante”. 
Pioneira 
Pela primeira vez, a Famerp vai receber um estudante com paralisia cerebral. Gabriela participará como aluna regular para obtenção do título de mestre em psicologia da saúde a partir de 2017. “Minha expectativa é corresponder o acolhimento da Famerp para comigo. Terei muita dedicação para minha qualificação”. A Famerp criou condições para que a estudante, que preenchia todos os requisitos exigidos pelo programa, participasse do processo seletivo e conseguisse conquistar uma vaga no curso. A avaliação foi mediante uma prova de língua inglesa. Foi disponibilizado um notebook, sem uso da internet, com as duas provas idênticas a de todos os candidatos. “Ela obteve uma média expressiva, e foi aprovada com nota 8, acima da média exigida (6)”, disse Adília Maria Pires Sciarra, professora da Famerp e especialista em língua inglesa e tecnologias educacionais.  O diretor geral da Famerp, Dulcimar Donizeti de Souza, destacou que o objetivo é reforçar os princípios da inclusão e criar condições para que mais alunos como Gabriela também consigam ter acesso à formação.
  • Falta de oxigenação adequada no cérebro causou a paralisia cerebral em Gabriela Garcia Ceron, 32 anos.